É necessário suplementar na gestação?

Atualizado: 24 de jan.


O período gestacional é marcado por grandes transformações no organismo da mulher, principalmente no que se refere à demanda de nutrientes, que está aumentada necessitando, portanto, de ajustes na alimentação materna com o objetivo de fornecer o adequado suprimento nutricional a ambos, mãe e feto.


As últimas vidências científicas mostram que os hábitos alimentares e o estilo de vida antes e durante a gravidez, assim como na lactação e na primeira infância promovem efeitos na saúde da criança, que se prolongam até a fase adulta1, ou seja, há um risco aumentado para o surgimento de doenças crônicas como obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares e outras na vida adulta. Assim, manter uma alimentação equilibrada na gravidez, além garantir a saúde da mãe e o desenvolvimento adequado do feto, é uma excelente forma de se evitar essas doenças na vida futura desse bêbe2-3.



É importante destacar também que a adoção de hábitos alimentares saudáveis na gravidez tem um papel fundamental no estabelecimento das preferências alimentares do bebê, quando da introdução alimentar, visto que estudos comprovam que as preferências alimentares da criança iniciam ainda na fase intrauterina. O feto, por meio da inalação e deglutição do líquido amniótico passa a reconhecer os compostos voláteis da alimentação materna e esse reconhecimento precoce de sabores facilita a aceitação dos mesmos quando do início da alimentação complementar4.



Ocorre que as gestantes, bem como a população brasileira de uma forma geral vêm mudando seus hábitos alimentares segundo Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística entre maio de 2008 e maio de 2009. Os dados constataram que o brasileiro ao longo dos anos vem se alimento de forma inadequada, tendo em vista o incremento na ingestão de alimentos com alta densidade energética, de alimentos ultraprocessados como: refrigerantes, fast food ricos em açúcares e gorduras, bem como ingestão insatisfatória de frutas, verduras, fibras e carboidratos e proteínas de boa qualidade5.


Outro fato relevante é com relação ao teor nutricional dos alimentos de hoje, pois com a escala de produção voltada para atender a crescente demanda populacional urbana, o seu foco passou para a quantidade ofertada em detrimento da qualidade do alimento. Com isso houve um aumento no uso de aditivos, produtos químicos, pesticidas e agrotóxicos na produção alimentícia provocando o empobrecimento do solo e alterando a composição dos alimentos, fazendo com que esses perdessem de 20 a 60% de seus nutrientes6.


Diante dessa realidade, indaga-se se há necessidade do uso de suplementação de vitaminas e minerais na gestação. Essa é uma questão pacificada pelo Conselho de Alimentação e Nutrição do Instituto de Medicina (IOM), no sentido de haver a necessidade de suplementação na gravidez, em razão das gestantes terem um risco aumentado de múltiplas deficiências, devido ao aumento das necessidades do feto em crescimento, da placenta e dos tecidos maternos.

Diversos estudos comprovaram os resultados satisfatórios no que se refere ao crescimento e desenvolvimento do feto, prevenção de nascimento prematuro, prevenção de cegueira noturna, peso adequado do bebê ao nascer, prevenção de defeitos congênitos no tubo neural, prevenção de anemias e outras doenças, após a adoção de suplementos de múltiplos micronutrientes na gravidez7.




A suplementação de micronutriente durante a gestação deve ser pensada como uma forma de complementação da alimentação, de modo a garantir o fornecimento de todas as vitaminas e minerais para a mãe, pois o feto de um modo geral, não apresenta deficientes de micronutrientes, em razão de o metabolismo da grávida estar voltado nesse período para suprir todas as necessidades do feto, ou seja, uma inadequada suplementação na gestante pode levar a agravos no embrião que podem prejudicar o seu desenvolvimento.

Uma questão relevante ao dotar a suplementação na gestação, é observar a biodisponibilidade dos micronutrientes presentes alguns polivitamínicos disponíveis no mercado, visto que a forma química da grande maioria é menos absorvida pelo organismo da grávida, que está modificado nesse período com aumento de permeabilidade intestinal, redução do trânsito intestinal, sensibilidade gástrica e outras alterações.

Outro ponto a ser observado, é no sentido de que esses suplementos contêm em seus ingredientes substâncias químicas sintéticas (corantes sintéticos, parabenos, flavorizantes artificiais) e outros xenobióticos, que podem trazer prejuízos ao organismo da gestante por requererem processos de destoxificação hepática. Assim, uma solução para minimizar esses problemas seria a adoção de suplementos manipulados livres dessas substâncias.

Nesse sentido, podemos concluir que a suplementação de vitaminas e minerais é um componente dietético necessário, em pequenas quantidades, para suportar as atividades metabólicas da mãe e do feto, mas deve ser adotada como complemento do plano alimentar da gestante. Bem como é de importância ímpar observar o estado absortivo da gestante para que não ocorra redução na absorção de micronutrientes, assim como deve-se atentar para as formas químicas de polivitamínico disponíveis no mercado, para não haver agravos em sua saúde.

No próximo post abordarei os micronutrientes mais suplementados na gestação.



REFERÊNCIAS


1 -Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável, et al., Alimentação Saudável dos 0 aos 6 anos – Linhas De Orientação Para Profissionais E Educadores, D.a.o.-G.d. Saúde, Editor. 2019, Ministério da Saúde. Direção-Geral da Saúde.


2 Koletzko, B., et al., Early nutrition programming of long-term health. Proc Nutr Soc, 2012. 71(3): p. 371-8.

3Koletzko, B., et al., Long-Term Health Impact of Early Nutrition: The Power of Programming. Ann Nutr Metab, 2017. 70(3): p. 161-169.


4 Raymond. J; Morrow. K, Krause and Mahan’s Food & the Nutrition Care Process. 15 th ed. 2020: Elsevier Health Sciences 1216.


5 Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Pesquisa de orçamentos familiares 2008-2009: avaliação nutricional da disponibilidade de alimentos no Brasil. Rio de Janeiro; 2010.


6 Cruz, F.; Schneider, S. (2010). Qualidade dos Alimentos, escala de produção e valorização de produtos tradicionais. Rev.Bras.de Agroecologia. 5(2), pp. 22-38.


7HAIDER, B.A.; BHUTTA, Z.A. Multiple-micronutrient supplementation for women during pregnancy. Cochrane Database Syst Rev., 13;4:CD004905,2017.


Como referenciar esse post?


SCORSAFAVAFA, Claudia. É necessário suplementar vitaminas e minerais na gestação?. Post 214. Nutrição Atenta. 2022.

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