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Gestantes podem tomar chá?

Atualizado: 1 de out. de 2023


As plantas medicinais há milênios fazem parte da cultura de diversos povos. Desde a antiguidade, a mais de 3000 anos a.C, as plantas já eram utilizadas como produtos terapêuticos, como forma de prevenir, curar, tratar diversas doenças.1- 2


A descoberta das plantas e suas propriedades medicinais e nocivas surgiu de forma empírica. As propriedades curativas das plantas, se deu pela observação dos animais que buscavam nas ervas a cura para seus males.3


A história das plantas medicinais faz parte da evolução humana. O homem, já usava as plantas ora como remédio, ora como alimento, e essa experiência tiveram sucessos e fracassos, pois algumas vezes havia a cura e em outras a morte ou a produção de efeitos colaterais severos.4


Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 80% da população mundial utiliza os recursos das plantas medicinais para suprir necessidades de assistência médica na atenção primária.5


No Brasil, o uso das plantas medicinais no tratamento de doenças teve a influência das culturas africana, indígena e europeia. O consumo de plantas medicinais é uma prática muito recorrente pela população brasileira, que as usam de forma empírica, sem orientação médica.6


Cabe destacar, que o Brasil é um país com a maior diversidade genética vegetal do mundo, contanto com mais de 55 mil espécies catalogas, de um total de 350 mil a 500mil espécies.7


No século XIX, com o avanço na área da Química foi possível a extração dos princípios ativos das planas, dando origem a Fitoterapia, uma ciência que emprega o uso das diversas partes das plantas como raízes, cascas, folhas, frutos e sementes no tratamento de doenças.8


Os fitoterápicos se apresentam de várias formas farmacêuticas, dentre as quais estão: infusão, decocção, extrato, tintura e alcoolatura. Na forma de chás as formas as mais comuns são a infusão e decocção. Na forma de extrato, os fitoterápicos podem se apresentar como cápsula, sachês, balas de goma, chocolate e outros. As tinturas são preparações líquidas alcoólica ou hidroalcoólica, já a alcoolatrua é preparada por maceração com álcool etílico.


Atualmente, a fitoterapia tem adeptos em todo o mundo e sua utilização é cada vez mais adotada pelos profissionais de saúde e também por pessoas que procuram a fitoterapia como uma alternativa de tratamento das doenças.9


No público materno não é diferente, visto que muitas gestantes encontram nas ervas medicinais uma forma de atenuar sintomas como náuseas, vômitos, constipação, azia, gripes e resfriados e etc., por acreditar que essas substâncias não causam problemas a saúde delas ou do bebê.10 Na maioria dos casos, a utilização de plantas medicinais é uma das únicas formas de tratamento, em vista do baixo poder socioeconômico da população.11


Por ser marcado por um período que exige cuidados especiais, em especial, no primeiro trimestre, considerado o mais crítico, o uso de fitoterápicos ou qualquer outra substância devem ser utilizados com cautela, visto nesse período por ocorrer um rápido desenvolvimento e divisão celular esse processo pode ser alterado por qualquer composto e prejudicar o seu crescimento fetal, podendo até levar a desfechos desfavoráveis na gestação como o aborto. 12


Na crença de que as ervas medicinais são “naturais e seguras”, o seu uso passou a ser utilizado com mais frequência, mesmo durante a gravidez. No entanto, não existem ensaios clínicos nem provas baseadas em evidências que mostram a seguranças do uso de chás na gestação.13


A recomendação geral é que as gestantes evitam o uso de todos os tipos plantas medicinais, por ocasião dos efeitos colaterais que podem causar na gestante e no feto, conforme demonstrado na tabela abaixo.


Fonte: Resolução da Secretaria do Estado de Saúde do Rio de Janeiro n. 1757.



No entanto, os estudos constataram que há algumas plantas medicinais que possuem segurança de uso durante a gravidez, dentre as quais se encontram o Zingiber officinale, e Vaccinium macrocarpon.


O genbibre ( Zingiber officinale) é comumente usado no primeiro trimestre para reduzir as náuseas e vômitos. A melhora dos sintomas ocorre devido ao seu ativo 6-gingerol que aumenta a motilidade do trato gastrointestinal.14-15

Cabe ressaltar que algumas pesquisas constataram efeitos colaterais como parto prematuro, diminuição do perímetro cefálico neonatal ao nascer16, assim como foi relatado que o uso pode ocasionar sangramento vaginal em razão de sua possível inibição da atividade da tromboxano sintase. 17-18

Assim, apesar de se ter segurança com uso do gengibre durante a gestação, deve-se ter cautela com o uso indiscriminado, devido aos possíveis efeitos colaterais citados acima.


O Vacciniu macrocarpon conhecido como cranberry, há décadas é utilizado para a prevenção e tratamento de infecção do trato urinário, uma doença prevalente entre as gestantes.

O cranberry, por ser rico em proantocianidinas (PAC) do tipo A, um tipo de composto fenólico da classe dos flavan-3-óis, estudos sugerem que a PAC ajuda na prevenção de infecção no trato urinário, principalmente, em mulheres com histórico de recorrências, pois esse substância interfere na aderência da E. coli às células que revestem o trato urinário e a bexiga, aumentando a probabilidade de serem eliminadas durante a micção, prevenindo assim a colonização bacteriana.19

O uso do cranberry mostrou-se seguro na gestação, sem nenhum risco aumentado de malformações congênitas, sem associação ao aumento de natimorto/morte neonatal, baixo peso ao nascer, pequeno pra idade gestacional, parto prematuro, baixo índice de Apgar, ou infecções neonatais ou sangramento vaginal materno no início da gravidez.

Sendo apenas relacionado o consumo de cranberry no final da gestação com sangramento vaginal após a 17ª semana de gravidez, conforme demonstrado em estudos.20


Nesse sentido, os fitoterápicos mesmo que os estudos apontam uma certa segurança quanto ao seu uso, é preciso ter cautela, em razão dos efeitos colaterais que podem resultar em desfechos desfavoráveis para mãe e para o bebê.


Assim, é importante o acompanhamento nutricional durante todo o período gestacional, pois o nutricionista é o profissional mais habilitado para promover as orientações necessárias para garantir uma gestação saudável e um acrescimento adequado do bebê.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


1- MACIEL, M.A.M., PINTO, A.C., VEIGA JR., V.F., GRYNBERG, N.F., ECHE- VARRIA, A. Plantas medicinais: a necessidade de estudos multi- disciplinares. Química Nova, v. 25, p. 429-438, 2002.


2- FERREIRA, E.T. et al. A utilização de plantas medicinais e fitoterápicos: uma revisão integrativa sobre a atuação do enfermeiro. Brazilian Journal of Health Review, v. 2, n.3, p.1511-1523, 2019.


3- TOMAZZONI MI et al, Fitoterapia poplar: a busca instrumental enquanto prática teraupêtica. Texto Contexto Enferm., 2006; 15(1):115-121.


4- DORT EJ. Introdução. In: Escala rura: especial de plantas redicinais. 1998; 1(41):1-62.


5- OMS - ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE. Bulletin of the World Health Or- ganization: Regulatory situation of herbal medicines-A worldwi- de review. Geneva, 1998.


6- BEBITOGLU, B. T. Frequently Used Herbal Teas During Pregnancy - Short Update. Medeniyet Medical Journal, [S.L.], v. 35, n. 1, p. 55-61, 2020. Galenos Yayinevi. http://dx.doi.org/10.5222/mmj.2020.69851.


7 – ÂNGELO T., RIBEIRO CC. Utilização de plantas medicinais e medicamentos fitoterápicos por idosos. Revista Eletrônica da Fainor, 2014, 7(1):18-31.

8- REZENDE, H.A; COCCO, M.I.M. A utilização de fitoterapia no cotidiano de uma população rural, Rev. Esc. Enferm, USP, v. 36, n.3, p.282-288, 2002.

9- KURIYAN R. et al.Effect of caralluma fimriata extract on apetite, food inteake and anthropometry in adult indian men and women. Appetit, 2006; 48:338-343.


10- GORRIL, L. E. et Al. Risco das plantas medicinais na gestação: uma revisão dos dados de acesso livre em língua portuguesa. Arq. Cienc. Saúde UNIPAR, Umuarama, v. 20, n. 1, p, 67-72, jan./abr. 2016


11- MAIA, C. L. A. Benefícios E Malefícios Relacionados Ao Uso Empírico De Plantas Medicinais Por Gestantes: Uma Revisão Da Literatura. 2019. 49 f. TCC (Graduação) - Curso de Farmácia, Centro de Educação e Saúde, Universidade Federal de Campina Grande, Cuité, 2019.


12-. FAKEYE TO, et Al. Attitude and use of herbal medicines among pregnant women in Nigeria. BMC Complement Altern Med. 2009;9:53. [PMC free article] [PubMed] [Google Scholar]


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19 WALLER, T. A. et al. Urinary Tract Infection Antibiotic Resistance in the United States. Primary Care: Clinics in Office Practice. Volume 45, Issue 3, September 2018, Pages 455-466.


20- HEITMANN K. et al. Pregnancy outcome after use of cranberry in pregnancy--the Norwegian Mother and Child Cohort Study. BMC Complement Altern Med. 2013 Dec 7;13:345. doi: 10.1186/1472-6882-13-345. PMID: 24314317; PMCID: PMC3924191.


Como referenciar este post?

TORQUATO, Cláudia Scorsafava. Gestantes podem tomar chá?. Post 532. Nutrição Atenta. 2023.

Instagram: @claudiascorsa_nutri

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