Comparação de métodos de avaliação da composição corpórea: bioimpedância ou dobras cutâneas?


O conhecimento do estado nutricional do indivíduo é fundamental para direcionar o tratamento dietético. No estudo da composição corpórea se conhece a massa corporal total, expressa pelas respectivas porcentagens de gordura e massa magra. O componente não-gorduroso é formado pelos tecidos muscular e esquelético, pela pele, órgãos entre outros tecidos, podendo este ainda ser identificado em massa magra (tecido muscular) e massa isenta de gordura. Estes dados estão relacionados diretamente com a saúde, doença e qualidade de vida do indivíduo, sendo relevantes e aplicáveis no acompanhamento de indivíduos saudáveis, doentes crônicos e agudos, além de praticantes de atividade física e até mesmo atletas.


As medidas antropométricas mais comumente usadas são: o peso, a altura, a circunferência da cintura, a espessura de pregas cutâneas e uma fórmula de peso/altura (IMC). Estas e/ou suas combinações são utilizados como indicadores de composição corpórea, a exemplo do percentual de gordura corporal. No que se refere à determinação desta composição corpórea, são diversos os métodos citados na literatura para se chegar a composição corporal.


Os métodos são classificados em diretos (dissecação de cadáveres), indiretos (Excreção de creatinina, Tomografia computadorizada, ressonância magnética, ultrassonografia, densitometria óssea e pesagem e hidrostática) e duplamente indiretos (bioimpedância, dobras cutâneas, e interactância de radiação infravermelha), sendo que alguns já estão bem elucidados e é bem estabelecido seu grau de confiabilidade e aplicabilidade. Cada qual tem suas vantagens e desvantagens.


O método direto é o mais preciso, porém não é possível ser usado atualmente, mesmo em cadáveres, pois envolve profundas questões éticas. Os métodos indiretos são referenciados como “padrão-ouro”, contudo apresentam algumas limitações, tangente a equipamentos complexos, sofisticados e de alto custo, como tomografia computadorizada, densitometria óssea (DEXA, dual-energy X-ray absorptiometry), ultrassonografia, tanque de pesagem hidrostática, gastam muito tempo para a realização, são de difícil aplicabilidade no acompanhamento evolutivo na prática clínica e pode haver necessidade de laboratório de pesquisa com pessoal técnico especializado.


Já os métodos duplamente indiretos possuem maior aplicabilidade clínica, por haver maior facilidade, rapidez de coleta e baixo custo. A avaliação por dobras cutâneas (DC) e a bioimpedância (Bioelectrical Impedance Analysis) são as mais utilizadas. Os resultados obtidos por estes métodos apresentam elevada relação com os procedimentos indiretos, se for levado em consideração determinados cuidados do avaliador e do avaliado, sendo que os erros de estimativa adentram em limites aceitáveis.


As DC são medidas que apenas necessitam de equipamento (adipômetro/picômetro), o método é alicerçado na observação da quantidade de gordura corporal por meio da avaliação de densidade no tecido subcutâneo. Dessa maneira, medidas quanto à sua espessura servem como indicador da quantidade de gordura localizada naquela região do corpo. A técnica pode oferecer uma estimativa de gordura corporal e sua distribuição nas diferentes regiões do corpo.


A bioimpedância (BIA) estima a composição corporal através da medida da passagem de uma corrente elétrica com baixa amplitude a alta frequência pelo corpo. Neste método o indivíduo não sente nenhum tipo de dor, sendo livre de radiação, rápido, seguro e simples. O aparelho é relativamente barato e pode ser de pequeno porte, podendo ser transportado. É importante salientar que existem diversos tipos de aparelhos, sendo classificados de acordo o número de eletrodos utilizados e a localidade em que são colocados (pé-mão, pé-pé ou mão-mão).


Outros procedimentos prévios por parte do avaliado devem ser levados em consideração: jejum de pelo menos 4 horas, não fazer exercícios antes de 12 horas do teste, urinar pelo menos 30 minutos antes do teste, não consumir bebida alcoólica antes de 48 horas do teste, não tomar medicamentos diuréticos antes de 7 dias do teste e manter-se pelo menos 10 minutos em posição de decúbito dorsal em repouso absoluto antes de efetuar o exame. Mulheres que percebam que estão retendo água durante estágio de seu ciclo menstrual não devem realizar o teste.


É importante conhecer os diferentes métodos de avaliação da composição corporal e suas condições, limitações e potencialidades, sendo assim o avaliador poderá interpretar corretamente e de forma condizente com a realidade, acompanhando alterações aos indicadores da composição, de forma particular da massa gorda e massa isenta de gordura e a validade destas para diversos grupos de indivíduos ou populações específicas. A correta identificação favorece um diagnóstico real e que não afete o tratamento nutricional.


A utilização de BIA é semelhante na predição dos resultados quando se compara com a DC, quando se tem o controle das condições clínicas (avaliador com habilidade técnica específica), porém analisando a não necessidade deste profissional altamente capacitado para a determinação, a bioimpedância parece ser mais atrativa, sendo mais confortável e menos intrusiva para os avaliados, além de poder ser utilizada para avaliar a composição corpórea de forma detalhada de indivíduos com sobrepeso e obesidade, casos que não são indicados na avaliação por dobras.


A BIA vem se tornando uma técnica que sobressai a outros métodos para avaliação do estado nutricional, por apresentar rapidez, precisão, simplicidade, facilidade de transporte e baixo custo relativo, apresentando fácil aplicabilidade clínica em populações como no caso de idosos.


Diversos são os autores que encontram resultados de composição corpórea semelhantes por ambos os métodos. Fiaminghi et al. (2010) não encontraram diferença significativa avaliando a composição corporal de adolescentes por meio de bioimpedância e dobras cutâneas, considerando os dois métodos válidos para avaliação desta população específica.


Couto et al. (2016) trazem que há comportamento estatístico semelhante na avaliação corporal por meio de BIA e DC, havendo a possibilidade de aplicabilidade de qualquer umas das técnicas para o conhecimento e diagnóstico da composição nutricional dos indivíduos.


Quanto mais completa e por diferentes métodos forem realizadas, é melhor para a segurança do diagnóstico. Em estudo com adultos jovens, Neves et al. (2013) compararam o percentual de gordura obtido por BIA e DC. Os autores trazem que todos os métodos apresentam aspectos positivos e negativos, sendo que a bioimpedância apresenta vantagem por diminuir as variações inter e intra-avaliador, fácil portabilidade de equipamento e manuseio deste. Porém, o percentual de gordura corporal apresentou boas correlações com o método da DC.


Já Elia (2013), não encontrou evidência que a BIA foi superior em predizer desfechos clínicos relativos a índice massa livre de gordura, considerando a antropometria por adipômetro por si só excelente para a predição de dados antropométricos, sendo dispensável a utilização da BIA.


Pela maior exequibilidade os dois métodos ainda são os mais utilizados para mensuração da composição corpórea por profissionais de saúde que utilizam seus parâmetros e resultados, seja para avaliar evoluções, prescrever alimentos e/ou suplementos ou ter parâmetros de saúde.


Diversos são os autores que chegaram a resultados semelhantes por ambos os métodos, havendo a possibilidade de aplicabilidade de qualquer umas das técnicas para o conhecimento e diagnóstico da composição nutricional dos indivíduos. Quanto mais completa e por diferentes métodos forem realizadas, é melhor para a segurança do diagnóstico. O avaliador deve conhecer as limitações de cada método e isolar todas as possíveis margens de erro que podem ocorrer seja a precisão de técnica utilizada, seja as variáveis do avaliado.


Sendo assim, quanto mais variada e por diferentes métodos será melhor a avaliação e o conhecimento da composição corpórea do indivíduo.


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