Fome em gaza
- nutricaoatenta
- 4 de ago.
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Conforme relatado pela UNRWA em 2024, famílias em condição de “abject poor” (menos de US $ 1,74 por pessoa/dia) recebem trimestralmente cestas contendo principalmente:
Farinha de trigo fortificada
Arroz
Óleo de girassol
Açúcar
Leite em pó
Lentilhas
Grão-de-bico
Após a intensificação do conflito, a cesta foi revista para cobrir cerca de 90 % das necessidades calóricas de indivíduos (≈ 2 100 kcal/dia), incluindo alimentos prontos para consumo (RTE), como sardinhas enlatadas, tahine, e hummus, adaptada às limitações de preparo nos abrigos.
Avaliação nutricional: balanço energético e macronutrientes
Estudos estimam que o suprimento médio per capita de ajuda humanitária entre janeiro e julho de 2024 alcançou:
~3 000 a 3 374 kcal/dia por pessoa
~98–101 g de proteína (≈ 12–13 % das kcal)
~61–80 g de gordura (≈ 18–21 % das kcal)
~23–25 mg de ferro por dia
Esses números superam os padrões mínimos do Sphere (2 100 kcal/dia; proteína ≈ 10 % e gorduras ≈ 17–23 % das kcal), porém o ferro fornecido fica aquém do recomendado (~32 mg/dia). .
Mesmo aplicando fator conservador de perda de 30 % da alimentação (roubo, deterioração, distribuição ineficiente), a disponibilidade energética teórica permanecia acima de 2 700 kcal/dia – ainda suficiente do ponto de vista calórico.
Análise crítica dos nutrientes
✅ Pontos positivos
A cesta garante energia (kcal), proteínas e gorduras em quantidade adequada segundo normas humanitárias.
A inclusão de lentilhas, grão-de-bico e leite em pó oferece proteínas vegetais e algum aporte de cálcio.
A versão revisada inclui alimentos prontos ao consumo e minimiza a dependência de combustível e água para preparo (ex.: sardinha enlatada e humus).
Limitações
Deficiências de micronutrientes
Ferro: com média de ~23–25 mg/dia, inferior à meta mínima de ~32 mg/dia, o que acentua risco de anemia numa população já com alta prevalência desse quadro.
Há também informações sobre carências de vitamina A, D, zinco, folato e cálcio, não garantidos pela composição atual da cesta.
Falta de diversidade alimentar e qualidade
Dietas empobrecidas, com ausência de frutas, legumes frescos, ovos e carnes. Crianças mostram baixa diversidade alimentar (68,9 % não consumiam ≥5 grupos alimentares/dia).
Isso pode predispor ao atraso no crescimento, perdas cognitivas e comprometimento da imunidade.
Acesso precário aos alimentos
Cadeias logísticas deterioradas: restrições, pilhagem, bloqueios resultaram em perdas de até metade do fornecido; grande parte da população não recebe de forma equitativa ou segura a cota.
Preço elevado de alimentos no mercado (a inflação de alimentos chegou a +300 %), tornando difícil a complementação da dieta fora da cesta básica.
Situação emergencial e nutrição infantil
Entre janeiro e setembro de 2024, foram realizadas mais de 87 000 triagens de MUAC em crianças de até 5 anos; cerca de 6 400 necessitaram tratamento por desnutrição aguda.
Apesar da ajuda, ~29,8 % das crianças de 1º ano apresentavam anemia e houve casos de restrição de crescimento e magreza.
Resumo da avaliação
Aspecto | Avaliação |
Energia, proteínas e gorduras | Adequados (seguem padrões Sphere) |
Ferro e micronutrientes | Insuficientes, risco elevado de anemia e deficiência múltipla |
Diversidade alimentar | Muito baixa, especialmente para crianças |
Acesso e distribuição | Irregular, afetado por violência, bloqueios e mercado caro |
Saúde infantil | Alta prevalência de anemia e desnutrição aguda |
Conclusão
A cesta básica fornecida pela UNRWA em Gaza oferece energia e macronutrientes em níveis compatíveis com padrões humanitários, o que é essencial em situações de crise. No entanto, a falta de diversidade alimentar e a deficiência de micronutrientes — notadamente ferro, vitaminas A e D, zinco e cálcio — são grandes limitações, especialmente em populações vulneráveis como mulheres grávidas, lactantes e crianças.
Além disso, as barreiras de acesso, incluindo bloqueios logísticos, pilhagens, inflação extrema e redução das cestas revertidas após maio‑junho de 2025 com o modelo GHF, agravaram ainda mais a insegurança nutricional.

A Fundação Humanitária de Gaza (FGH), um grupo apoiado por Israel e pelos Estados Unidos, atua na Faixa desde o final de maio e afirma já ter distribuído 91 milhões de refeições, principalmente por meio de caixas com alimentos.

O que há nas caixas?
Duas fotos publicadas mostram principalmente, alimentos secos que exigem água e combustível para serem cozidos, como macarrão, grão-de-bico, lentilhas e farinha de trigo.
Também mostram que as caixas incluem óleo de cozinha, sal e tahine (pasta de gergelim).
A fundação humanitária de gaza (FHG) informou que essas caixas também contêm alimentos prontos para consumo, como barras de halva — um lanche popular feito com tahine e açúcar.
A organização forneceu uma tabela com o que descreve como uma "lista de referência" dos itens em cada caixa, com a divisão de calorias.
Uma caixa média contém 42.500 calorias e, segundo a tabela, pode alimentar 5,5 pessoas por 3,5 dias.
Ocasionalmente, o conteúdo inclui produtos substitutos como chá, biscoitos e chocolate, além de batatas e cebolas, mas esses itens não estão incluídos nos dados nutricionais, segundo informou a FHG.
Um professor de desenvolvimento em cooperação internacional da London School of Economics analisou a lista fornecida pela FHG à BBC Verify e afirmou que, embora ela possa fornecer as calorias necessárias para a sobrevivência, apresenta sérias deficiências.
"Essencialmente, essa cesta enche o estômago, mas oferece uma dieta vazia", afirmou o professor Stuart Gordon. "O maior problema está no que falta... Trata-se, basicamente, de uma cesta alimentar de 'primeiros socorros', projetada para conter os efeitos devastadores da fome aguda", explicou.
No entanto, ele advertiu que "uma dieta como essa, por semanas, levaria à chamada 'fome oculta', aumentando o risco de doenças como anemia e escorbuto".
Já o doutor Andrew Seal, professor associado de nutrição internacional no University College London, apontou que as caixas de alimentos apresentavam deficiências de cálcio, ferro, zinco e das vitaminas C, D, B12 e K.
Ele também observou a ausência de alimentos adequados para crianças pequenas.
"O consumo prolongado desses alimentos, mesmo que em quantidades adequadas, causaria várias deficiências e sérios problemas de saúde", afirmou.
Seal acrescentou que, ao contrário da FHG, organismos como a ONU costumam distribuir alimentos a granel e complementá-los com nutrição específica para grupos vulneráveis.

Referências bibliográficas:
ALMOG, Ran et al. How much aid has entered Gaza and how much food aid has been delivered? Israel Journal of Health Policy Research, v. 14, n. 1, p. 1-10, 2024. Disponível em: https://ijhpr.biomedcentral.com/articles/10.1186/s13584-025-00668-6. Acesso em: 2 ago. 2025.
BBC NEWS BRASIL. O que há na polêmica caixa de comida distribuída em Gaza pela organização apoiada por Israel e EUA?. 2025. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c93dplpg2eqo. Acesso em: 2 ago. 2025.
BUNN, Matthew. Food balance estimates for Gaza from January to July 2024. Public Health Nutrition, v. 27, n. 3, p. 89–94, 2024. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC11818336/. Acesso em: 2 ago. 2025.
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UNRWA – United Nations Relief and Works Agency. Gaza Situation Report – Issue No. 186. 2024. Disponível em: https://www.un.org/unispal/document/unrwa-gaza-situation-report-issue-no-186/. Acesso em: 2 ago. 2025.
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Como referenciar este post
CINTRA, Patricia. Fome me gaza. Post 783. Nutrição Atenta. 2025.
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